Modos à mesa

Antes eu a amava. Ficava encantado com tudo ao seu respeito. Seus olhos grandes, castanhos e cheios de medo; seu cabelo macio e seu sorriso de lado, com a boca fechada. Amava o toque de suas mãos e o jeito que dizia “vai dar tudo certo” quando eu estava desesperado.
Amava até quando você estava tão faminta que não parava de comer enquanto eu falava. Ia apenas respondendo com olhares e movimentos da cabeça. E eu entendia tudo.
O tempo passou e as coisas foram se transformando. Não sei bem o que mudou, só sei que parecia diferente. Sentar ao seu lado não me passava a sensação de estar protegido; sentir seu cheiro não me despertava afeto, e estar com você já não era a melhor parte do meu dia.
Não sei ao certo se você passou a agir diferente ou se fui eu que sofri uma metamorfose interna. Provavelmente, a segunda opção é mais lógica. Eu sempre estive em movimento, e você sempre foi a mesma. Era tão certinha que chegava a ser previsível.
Talvez, com o passar dos anos, isso me cansou. Sempre o mesmo sabor da pizza, o mesmo programa de TV, o mesmo bar, a mesma cerveja amarga e a camiseta da mesma banda.
Você é, sim, diferente das outras pessoas. Sempre quis ser desse jeito. Seus filmes, poemas e canções favoritos eram sempre os menos conhecidos. Nada que fazia sucesso parecia lhe atrair. E assim você vivia, pensando ser melhor do que os outros.
Mas a verdade é que sempre foi mais óbvia que todas elas. Quem lhe conhece sabe exatamente como vai agir e até o que vai dizer. No fim das contas, deve ter sido realmente isso que fez com que eu perdesse o interesse no nosso amor.
Quis começar uma nova história, com mais imprevistos e menos conforto. Queria ouvir as bandas novas, beber outras cervejas, desligar a TV, conhecer outros bares e ser um pouco mais óbvio.
Agora eu a odiava. Ficava enojado com tudo a seu respeito. Seus olhos grandes, castanhos e cheios de medo, que refletiam a sua imaturidade; seu sorriso de lado, com a boca fechada. Por que não pode mostrar os dentes como qualquer pessoa normal?
Odiava o toque de suas mãos e o jeito que dizia “vai dar tudo certo” quando eu estava desesperado. Às vezes a gente só quer alguém para ficar triste e chorar junto.
Odiava, principalmente, quando você estava tão faminta que não parava de comer enquanto eu falava. Ia apenas respondendo com olhares e movimentos da cabeça. E eu não entendia nada.

Bruno da Silva Inácio cursa mestrado na Universidade Federal de Uberlândia, é especialista em Gestão Cultural, Literatura Contemporânea e em Cultura e Literatura.
Ele Cursa pós-graduação em Filosofia e Direitos Humanos e em Política e Sociedade. É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto”, “Coincidências Arquitetadas” e “Devaneios e alucinações”, além de ter participado de diversas obras impressas e digitais.
É colaborador dos sites Obvious e Superela e responsável pela página “O mundo na minha xícara de café”
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