O cinema espanhol possui uma linha do tempo muito clara: antes e depois de Pedro Almodóvar.
Com uma estética inconfundível marcada pelo uso vibrante das cores (especialmente o vermelho), melodramas intensos, humor ácido e uma empatia profunda por personagens marginalizados, o diretor construiu um império autoral na cinematografia mundial.
Para quem deseja mergulhar nessa filmografia pulsante e não sabe por onde começar, aqui vão cinco obras fundamentais para compreender a mente de um dos maiores cineastas vivos.
Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (ano de 1988)
Este é o filme que catapultou Almodóvar para o estrelato internacional e lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar.
A trama acompanha uma atriz de dublagem que tenta desesperadamente descobrir por que foi abandonada pelo amante.
No caminho, ela cruza com uma amiga envolvida com terroristas, um filho desconhecido e muito gaspacho batido com soníferos.
Trata-se da tradução perfeita da comédia caótica dos anos 1980, mostrando a habilidade ímpar do diretor em transformar o desespero feminino em arte e humor refinado.
Tudo Sobre Minha Mãe (ano de 1999)
Anos mais tarde, Almodóvar atingiu o ápice do melodrama com esta obra que lhe garantiu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Na história, após testemunhar a morte acidental do filho no dia em que ele completava 17 anos, a protagonista Manuela viaja a Barcelona para encontrar o pai do garoto — uma mulher trans que sequer sabe que teve um filho.
Este filme é uma ode à maternidade, à sororidade e à resiliência, entregando algumas das personagens mais complexas, humanas e sensíveis de toda a sua carreira cinematográfica.
Fale com Ela (ano de 2002)
O cineasta entregou aqui o que muitos críticos consideram sua obra-prima poética, garantindo o Oscar de Melhor Roteiro Original — um feito raríssimo para um filme de língua não-inglesa.
Diferente de seus trabalhos anteriores quase sempre focados no universo feminino, aqui o diretor investiga a solidão e a conexão improvável entre dois homens que cuidam de duas mulheres em coma em uma clínica.
É um filme melancólico, belo e moralmente desafiador, que usa a dança e o silêncio para falar sobre a obsessão e a paixão masculina.
Volver (ano de 2006)
Um reencontro emocionante do diretor com sua terra natal (La Mancha) e com sua maior musa, Penélope Cruz, que foi indicada ao Oscar por este papel.
Misturando realismo mágico, crime e drama familiar, o filme acompanha três gerações de mulheres que sobrevivem ao vento leste, ao fogo, à loucura e até à própria morte.
O título significa “voltar” e funciona como uma verdadeira carta de amor às mulheres da infância de Almodóvar, equilibrando perfeitamente o suspense macabro com uma doçura profunda sobre os laços familiares.
Dor e Glória (ano de 2019)
O diretor abriu o espelho da própria alma nesta obra que funciona praticamente como uma autobiografia filmada.
Antonio Banderas, outro colaborador de longa data, interpreta Salvador Mallo, um cineasta em declínio físico e criativo que relembra sua infância, seu primeiro amor, a relação com a mãe e sua trajetória artística.
Enquanto o protagonista tenta lidar com as dores do corpo e da alma, o público assiste ao Almodóvar mais maduro e introspectivo de todos.
É uma obra profundamente tocante sobre o tempo, a memória e a reconciliação com o passado.
BRUNO INÁCIO
Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de “Desprazeres existenciais em colapso” (Patuá), “Desemprego e outras heresias” (Sabiá Livros) e “De repente nenhum som” (Sabiá Livros).
É colaborador do Jornal Rascunho, do Le Monde Diplomatique e da São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas Gerais.
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