Beau Tem Medo, novo trabalho de Ari Aster (Hereditário e Midsommar), não é uma obra convencional. Também por isso, pela primeira vez na vida vi pessoas abandonando a sessão antes de o filme chegar ao fim. E não acho que isso tenha ocorrido por conta das três horas de duração do longo estrelado por Joaquin Phoenix. Todo mundo sabia desse detalhe ao escolher sair de casa num feriado para ir ao cinema.
A nova aposta da produtora já conceituada A24 não é um filme confortável. Há, desde os primeiros minutos, um absurdo em tela, daqueles dignos do teatro de Eugène Ionesco. Tudo parece exagerado aos olhos paranoicos de Beau e, conforme a narrativa avança, seus motivos para isso ficam cada vez mais evidentes.
Mas o absurdo vai muito além. Ari Aster parece ainda mais disposto a causar incômodos nos espectadores. Faz isso por meio de inconveniências, personagens inverossímeis, cenas abruptas e outras que se arrastam. Em nada disso, contudo, há demérito.
Embora eu goste bastante dos rumos tomados em Hereditário e Midsommar, arrisco dizer que Beau Tem Medo é o trabalho mais criativo de Ari Aster. E defendo o incômodo gerado pela narrativa como algo positivo, afinal, não é gratuito, mas sim uma espécie de provocação bastante pertinente dentro daquilo que a obra se propõe a fazer.
O flerte com o teatro e a confusão estrutural também são, em meu ver, aspectos positivos, especialmente por colocar o espectador na mente ansiosa e, por vezes, infantil de Beau. Isso sem contar todos os simbolismos apresentados no filme e a construção da relação entre o protagonista e sua mãe, um prato cheio para psicanalistas e entusiastas dessa área do conhecimento.
Joaquin Phoenix entrega outra grande atuação e Ari Aster acerta em quase tudo no roteiro e na direção, mesma nas partes que têm sido criticadas pelo ritmo lento. Ainda assim, é claro que não se trata de um filme perfeito.
Isso porque o terceiro ato não é tão interessante quanto os dois primeiros terços do filme, sobretudo numa cena específica em que o cineasta optou pela escolha de um CGI (sigla que vem do termo em inglês Computer Graphic Imagery, ou seja, imagens feitas com computação gráfica) desnecessário e muito direto para alguém que, em geral, prefere trabalhar a subjetividade do texto.
Ainda assim, Beau Tem Medo é um filme que fica por bastante tempo na mente do espectador que conseguiu mergulhar na obra, ainda mais quando se leva em conta as possibilidades que deixa em aberto.
Bruno da Silva Inácio é jornalista, mestre em Comunicação e pós-graduado em Literatura Contemporânea, Política e Sociedade e Cultura e Literatura. Atualmente cursa quatro especializações (Cinema, Teoria Psicanalítica, Antropologia e Gestão da Comunicação) e reside em Uberlândia, onde trabalha como assessor de imprensa da Prefeitura.
É autor dos livros “Gula, Ira e Todo o Resto” e “Devaneios e alucinações”, participante de outras quinze obras literárias e colaborador da Tribuna de Ituverava e dos sites Obvious, Provocações Filosóficas e Tenho Mais Discos que Amigos. Também manteve, entre 2015 e 2019, a página “O mundo na minha xícara de café”, que chegou a contar com 250 mil seguidores no Facebook.
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