A profunda ligação inconsciente entre arte simbólica e a psicanálise

Frequentemente associado à psicanálise, o filme Um cão andaluz, de 1929, traz uma narrativa abstrata, repleta de imagens “desconexas” que parecem ter mesmo saído do próprio inconsciente.
Não por acaso, os responsáveis pelo curta-metragem são Luis Buñuel e Salvador Dalí, dois dos maiores nomes do surrealismo, movimento artístico que desde o seu princípio utiliza bases da psicanálise para a execução de suas obras.
As intenções principais do movimento – ao incorporar elementos freudianos – incluem buscar novos métodos inspiratórios para os artistas e provocar sensações e sentimentos mais diversificados no público.
Dessa forma, ao invés de colocar produções artísticas como objeto de conforto e mera contemplação, o surrealismo se propõe a ir mais fundo no inconsciente, através de um processo criativo mais caótico e “natural”, como quando escritores deste movimento escreviam em seus livros as palavras que vinham à cabeça, mesmo que elas não viessem acompanhadas de coerência e coesão.

Reflexão
A partir dessa breve reflexão sobre a relação entre a psicanálise e o surrealismo, é possível observar que a arte tem uma ligação complexa com o campo de conhecimento que teve Sigmund Freud como precursor
E isso, evidentemente, não se limita a um ou outro movimento artístico e, muito menos, a um campo bastante específico.
Para constatar isso, basta observar a maneira que uma mesma produção artística – um livro da autora Virginia Woolf, por exemplo – impacta as diversas pessoas e de formas muito diferentes.
Mesmo que a obra em questão não aborde a psicanálise diretamente, ela serve como instrumento para fazer com o contato com ela gere reflexões, novas percepções e um olhar para dentro.
Pessoas com traumas mais específicos, com os pais, por exemplo, tendem a se sentir mais afetadas com essa temática em uma obra artística do que aquelas que não lidam com esse problema.
Ou seja, a arte tem a capacidade de tocar em muitas camadas psicológicas e emocionais, inclusive aquelas que são tabus ou que pareciam esquecidas.
De maneira geral, esse fato é conhecido por artistas. Porém, engana-se quem acredita que eles obrigatoriamente levam isso em conta ao produzir seus trabalhos.
É claro que existem produções comerciais pensadas exclusivamente para mexer com certas emoções do público.
Mas elas andam, na maioria das vezes, por caminhos com fórmulas prontas e rasas – ainda assim, funcionais.
Há de se lembrar, contudo, que o artista não está alheio ao inconsciente.
Dessa forma, quando um escritor trabalha em um livro, por exemplo, ele pode não estar pensando em quais sensações e emoções aquela história despertará em seus leitores, mas sim colocando elementos do seu inconsciente em uma narrativa, da forma mais “irracional” possível.

Análise racional
Esse processo é essencial para a maior parte dos artistas, já que se analisarem racionalmente a origem de cada elemento de suas produções, a arte por eles produzida pode perder o sentido ou, em muitos casos, até mesmo deixar de existir, principalmente para eles mesmos.
É o caso de Louise Bourgeois, que afirmava depositar na produção de suas esculturas muitos de seus traumas, e de Cazuza, que dizia ter medo de fazer análise e perder a inspiração para compor suas músicas.
Há de se perceber, portanto, que a psicanálise está ligada à arte em muitos níveis, desde artistas que se dedicam à leitura de textos de psicanalistas – e se inspiram neles – até psicanalistas que dedicam obras, artigos e estudos à busca da compreensão do processo artístico ou, como Jacques Lacan, à busca dos elementos psicológicos que diferenciaram os artistas dos não-artistas.
Isso sem esquecer, é claro, dos mecanismos acionados no inconsciente quando uma pessoa se depara com uma obra artística ou quando o artista a produz.
As emoções, mesmo as mais simples, caminham sempre próximas às produções artísticas porque elas funcionam como uma espécie de ponte entre a sensibilidade do artista em seu processo criativo e as experiências, vivências, traumas e bagagem cultural de quem se depara com a obra concluída.
E a psicanálise possibilita a vivência de emoções e reflexões, através de um processo complexo e envolvente, ora libertador, ora angustiante, entre artista, criação e público.

Bruno Ínacio

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de “Desprazeres existenciais em colapso” (Patuá), “Desemprego e outras heresias” (Sabiá Livros) e “De repente nenhum som” (Sabiá Livros).
É colaborador do Jornal Rascunho, do Le Monde Diplomatique e da São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas.

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