Acidentes custam R$ 38 milhões aos cofres estaduais por semestre

Foto de internet de um acidente

Montante gasto daria para construir 385 apartamentos pelo CDHU para famílias de baixa renda

Dados do DATASUS indicam que, somente, no primeiro semestre de 2021, R$ 38,5 milhões foram gastos com internações relacionadas a acidentes de trânsito no Estado de São Paulo. Com esse montante daria para construir 385 apartamentos pelo CDHU para famílias de baixa renda.
A utopia de um trânsito cordial também desocuparia as salas de fisioterapia da Rede de Reabilitação Lucy Montoro, maior hospital para reabilitação de pessoas com deficiência física do Sistema Único de Saúde do Estado de São Paulo. Dados de atendimentos relacionados a acidentes de trânsito na capital em 2020 foram de 7.233 atendimentos, envolvendo 483 pacientes.
Até agosto deste ano, foram 8.053 acidentes e 515 pacientes. A maioria dessas vítimas é de homens, entre 15 a 39 anos, envolvidos em acidentes com moto. Aliás, o Estado amarga a triste marca diária de 5.2 mortos de motociclistas por dia. Somente no município de São Paulo, o número é de 0.9 óbito por dia.
Ainda que os números sejam preocupantes, é importante dizer que o Estado de São Paulo já teve uma redução significativa em relação aos últimos seis anos. Entre janeiro de 2015, quando o governo paulista lançou o Programa Respeito à Vida e lançou o sistema Infosiga, e agosto de 2021, houve uma diminuição de 1.383 mortes no trânsito paulista.

Avanço
O avanço equivale a salvar quase que a metade de inocentes que morreram no ataque terrorista do World Trade Center. No ranking das vidas que não foram perdidas durante esse período destaca-se a queda de óbitos entre os pedestres, que foi de 651.
A ausência de mortes no trânsito significa também uma rotina menos triste nos cemitérios. Ainda de acordo com o Infosiga, de janeiro a agosto deste ano, 3.197 óbitos foram registrados no Estado de São Paulo. Ou seja, em 242 dias a média de óbitos no trânsito foi de 13,2 vítimas perdidas e famílias despedaçadas.

Transporte
Para Ana Carolina Soares Bertho, pesquisadora na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), além do comportamento das pessoas e das atitudes individuais, é preciso rever as opções de modais que transportam as pessoas.
“Nota-se que há mais acidentes envolvendo o individual do que o coletivo. Há menos ocorrências nas viagens diárias de transporte público do que em carros ou motos. Por terem uma velocidade mais limitada se tornam menos letais”, afirma.
A especialista em mobilidade e mortalidade também destaca a importância do conjunto de atitudes que levam para viagens mais seguras. “As mudanças implementadas no novo Código de Trânsito Brasileiro trouxeram um impacto importante nos óbitos e alterou os hábitos do condutor brasileiro”, diz.
Ana Carolina Bertho alerta que, além da capacitação dos motoristas, é necessário também uma formação ampla para o trânsito e inserir ciclistas e pedestres no circuito: “eles fazem parte da rede e também são impactados nos acidentes. Uma forma de aplicar essa conscientização é desde cedo, nas escolas”, observa.

Sono é responsável por 42% dos acidentes de trânsito no Brasil

A má qualidade do sono pode ser responsável por até 42% dos acidentes de trânsito no Brasil, segundo a pesquisa realizada pela Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego), em parceria com a Academia Brasileira de Neurologia e o Conselho Regional de Medicina.
A privação de sono lentifica as reações a estímulos, diminui a acurácia de resposta e leva a longos lapsos de atenção de acordo com o estudo conduzido pela AAA Foundation for Traffic Safety.
Um estudo americano identificou que o risco de colisões aumenta de maneira inversamente proporcional à quantidade de horas de sono entre os motoristas.
Períodos de sono entre 6 e 7 horas levaram a uma taxa de risco de acidentes de 0,3 vezes maior em relação a indivíduos que dormiram ao menos 7 horas nas 24 horas anteriores, podendo chegar a 10,5 vezes mais em períodos de sono inferiores a 4 horas.

Fatores
Muitos fatores responsáveis por afetar o sono e gerar insônia são comumente conhecidos. Porém, entre eles, está também a Apneia Obstrutiva do Sono (AOS), um distúrbio ainda pouco conhecido pela maioria da população no qual os músculos da garganta relaxam a ponto de entrar em colapso, restringindo o fluxo de ar, o que faz com que a respiração se torne superficial e até pare por segundos ou minutos, privando o corpo e o cérebro de oxigênio. Mesmo que os despertares sejam geralmente muito curtos, eles fragmentam e interrompem o ciclo do sono.
Essa fragmentação do sono pode causar níveis significativos de fadiga e sonolência diurna, o que pode causar inúmeros prejuízos à pessoa e à sociedade, como o aumento do risco de acidentes de trânsito.
Segundo o Doutor Geraldo Lorenzi Filho, médico e professor associado da Faculdade de Medicina da USP e diretor do laboratório do sono do InCor, “existem evidências cientificas claras de que, como a Apneia Obstrutiva do Sono causa sonolência, pode gerar desconcentração e ocasionar acidentes automobilísticos”.
Ele afirma que o reconhecimento da apneia e o tratamento adequado com CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas) levam à melhor qualidade do sono e de vida e como consequência diminuem os riscos de acidentes.

Sonolência
“A sonolência e a direção formam uma mistura muito perigosa porque o sono vai se instalando aos poucos e a pessoa não percebe. Como dirigir já faz parte da rotina de muitos, o indivíduo pode não se dar conta de que está sonolento ao volante”, declara o médico.
Alguns sinais que podem indicar a presença do distúrbio são: ronco, cansaço diurno constante, dificuldade de concentração, dores de cabeça matinais, humor depressivo, falta de energia, esquecimento ou hábito constante de acordar para ir ao banheiro.
Uma vez que a apneia seja diagnosticada, o tratamento mais comumente indicado é o uso de CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas). No Brasil, o tratamento para apneia pode ser realizado com equipamentos ResMed.
Pacientes podem acompanhar sua própria terapia com CPAP por um aplicativo gratuito e fácil de usar, chamado myAir.
O app fornece uma pontuação diária sobre como a pessoa dormiu e inclui vídeos e informações personalizadas de treinamento com base nos dados de terapia, o que melhora ainda mais a adesão ao tratamento.

ONG apresenta oito ações para reduzir as mortes no trânsito

A ONG World Resources Institute Brasil desenvolveu oito pontos com o objetivo de reduzir as mortes no trânsito a partir da abordagem de sistemas seguros.
Os oito pontos são: construir cidades compactas e conectadas, desenhar ruas mais inteligentes, oferecer uma variedade de opções seguras de mobilidade, manter as velocidades em níveis seguros, reforçar leis existentes e regulações, educar melhor motoristas e planejadores urbanos, exigir padrões universais de segurança para veículos e acelerar a resposta a emergências.
Diversas medidas têm sido adotadas para reduzir a mortalidade relacionada nas rodovias do Estado de São Paulo. Entre elas, algumas de maior impacto podem ser destacadas.
A redução no tempo de atendimento às vítimas de acidentes pode diminuir a mortalidade em até 60%. Em rodovias, esse aspecto é ainda mais relevante, dado os tempos naturalmente despendidos entre o deslocamento da equipe de resgate até o local do acidente e, em situações mais graves, dali para o hospital mais próximo. Os socorristas chamam esse período crítico de “A Hora de Ouro”, que é absolutamente relevante para as estatísticas de salvamentos de acidentes de trânsito.
Por último, estudos indicam forte redução de mortalidade em trechos urbanos de rodovias que foram iluminadas. Um estudo que reuniu resultados de 50 pesquisas referentes ao impacto sobre os acidentes da iluminação em vias previamente não iluminadas concluiu pela de redução de 60% em acidentes fatais nessas áreas.

Qualidade de vida

Com um trânsito mais fluente, sem acidentes nas vias urbanas, se ganharia tempo e melhoraria a qualidade de vida. Hoje, os paulistanos gastam em média cerca de 127 minutos por dia no trânsito. Com carro ou no transporte coletivo. Se não houvesse acidentes, com certeza o tempo de deslocamento seria menor, o que permitiria que a pessoa pudesse ter mais tempo para curtir sua família e cuidar da sua higiene mental.
Pesquisa realizada pela Faculdade de Saúde Pública da USP aponta que o tempo que desperdiçado no trânsito da cidade de São Paulo provoca problemas de saúde. “Os acidentes de trânsito envolvem principalmente jovens e homens. Eles afetam a sociedade de forma econômica, social e familiar. Não há como mensurar os benefícios de um universo sem mortes nas vias. Provocaria um equilíbrio e um impacto significativo na população. E não é por acaso que a Organização das Nações Unidas, estabeleceu a Década da ONU a fim de reduzir em 50% óbitos em acidentes de trânsito”, finaliza Ana Carolina.

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